Bahia tem maior taxa de amputações de membros entre os dez estados mais populosos do Brasil; no Nordeste é a segunda maior

Somente em 2021, com base em dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV), a Bahia teve a maior taxa de amputações por 100 mil habitantes entre os dez estados mais populosos do Brasil. Foram 19,8 casos, número que também coloca o estado com a segunda maior taxa do Nordeste, atrás apenas de Sergipe, com 21,9 casos. Ao todo, em números totais, foram 2804 cirurgias em 2021, o maior da região. No acumulado de dez anos (2012-2021), o estado teve 11 amputações a cada dois dias, com total de 20.288 cirurgias. Para debater avanços na área médica e discutir esses dados, Salvador será palco da VII Jornada Baiana de Angiologia e Cirurgia Vascular, promovida pela regional da SBACV no estado. Entre os temas do evento, que ocorre em 25 e 26 de agosto, estão o pé diabético, uma das causas das amputações, assim como o desenvolvimento de tecnologias avançadas em próteses e o cuidado após a cirurgia de retirada de membros.

Segundo a SBACV, o diabetes é a causa de mais da metade das amputações. O presidente da instituição, Julio Peclat, comenta que pessoas com a doença desenvolvem, com o passar do tempo, a perda de sensibilidade ao toque, à temperatura e à dor. “Com isso, o indivíduo não sente quando fere o pé. De modo geral, por não perceber, evolui para quadros de infecção que resultam em desbridamentos ou amputações”, explica. Além disso, completa, existem outras questões que podem levar à retirada de membros, como tabagismo, hipertensão arterial, dislipidemia, idade avançada, insuficiência renal crônica, estados de hipercoagubilidade e histórico familiar.

Como em muitos casos essas complicações podem continuar na vida do paciente mesmo depois da retirada do membro, é necessário o acompanhamento profissional e técnico, assim como o investimento em pesquisas. Para Thomas Pfleghar, diretor de academy na América Latina da Ottobock, empresa especializada na produção de equipamentos para mobilidade e que estará no evento na Bahia, encontros como esse são necessários para a melhoria na qualidade de vida da população. “Se analisarmos estatisticamente, o diabetes é responsável pelo maior número de amputações no mundo. Participar desses eventos, poder trocar informações, dividir experiências, conhecer e apresentar novos produtos e tecnologias para reabilitação, assim como trabalhar formas de prevenção a essa doença, é muito importante para minimizar o impacto causado”, reforça.

Vida após a amputação

Depois do diagnóstico sobre a necessidade de amputação e com a cirurgia, o próximo passo nessa nova etapa da vida dos pacientes é buscar um acompanhamento adequado para o uso de próteses. Segundo Pfleghar, “o processo de protetização para pessoas com doenças vasculares, como é o caso do diabetes, é iniciado com as orientações adequadas relativas aos cuidados com o membro residual (a parte que permanece no corpo após a cirurgia)”.

Antes mesmo de receber um equipamento de alta tecnologia para mobilidade, segundo o diretor da empresa, os pacientes passam por uma fase do acompanhamento chamada de “pré-protética”. Pfleghar explica que esse momento deve ser iniciado o mais rápido possível, após a liberação médica. “Devem ser mantidas visitas a clínicas especializadas pelo menos duas vezes por semana acompanhadas por profissionais capacitados, além de uma orientação diária para solucionar dúvidas e dar suporte à pessoa que está entrando em uma nova fase da vida”.

O trabalho dos profissionais da área após a fase pré-protética continua com levantamento de algumas questões, como o posicionamento adequado do membro para evitar contraturas; o enfaixamento do membro com a pressão ideal após a liberação médica; e a inspeção diária da pele para evitar feridas e pontos de pressão. Ainda de acordo com o diretor da Ottobock, o membro residual precisa ser estabilizado, e os especialistas trabalham com a mobilidade e o fortalecimento para que se inicie a adaptação para o uso da prótese. “É ideal fazer a avaliação e prescrição de componentes adequados ao paciente, para a proteção da pele e conforto da pessoa, evitando pressões no membro residual”, explica.

Reabilitação, adaptação e trabalho técnico

A reabilitação de maneira geral para pacientes com doenças vasculares pode variar de três a nove meses, de acordo com a condição física e nível de amputação. Receber a prótese adequada não é o suficiente e os profissionais passam a trabalhar na adaptação do paciente ao equipamento. E isso varia de pessoa para pessoa, segundo o especialista.

De maneira geral, ele pontua alguns critérios para que isso se efetive: habilidades para colocar e retirar a prótese; realização de marcha (caminhada) de maneira segura com o dispositivo adequado; e retomada das atividades de vida diária com a autonomia necessária. “O tempo de adaptação depende da curva de aprendizado do paciente para utilização da prótese de maneira segura”, comenta.

Já no início da utilização do equipamento, o paciente ainda precisa passar pelo alinhamento e adaptação da prótese pelo técnico, algo que varia conforme o nível de amputação e condição física de cada pessoa. Além disso, o utilizador do equipamento ainda precisa de um treinamento, o que é acompanhado por uma equipe de fisioterapia de forma intensiva no período inicial. “Isso é necessário até que o paciente esteja seguro para utilizar a prótese em casa e posteriormente em ambientes externos e comunitários. O foco é devolver o paciente para sua rotina da melhor maneira possível, com toda a qualidade de vida que ele precisar”, finaliza ele.

Fonte: Diga Salvador

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